
Se existe uma característica em mim que chama a atenção, esta é a passionalidade. Quando o assunto é futebol, e especialmente o nosso Vasco, dou um bico pra escanteio na razão sem o menor pudor e me entrego de corpo e alma as emoções que só uma pelota de couro é capaz de produzir.
Poderia inventar uma história, uma que fosse deveras mais emocionante do que a minha verdadeira. Poderia até dizer que estive no Palestra naquele jogo histórico, e quem dera eu estivesse. Pensando melhor, eu estive. Não de corpo presente, mas meu espírito estava lá. O meu e o de 15 milhões de Vascaínos apaixonados, empurrando nosso amor mais antigo e mais sincero rumo a mais uma glória, apenas mais uma, das tantas que a nossa incomensurável sala de troféus reflete. Poderia inventar, mas contarei a minha. Talvez não seja a mais emocionante, a mais curiosa, a mais bem contada, mas é a minha.
Tinha eu meus 12 anos à época, e esperava ansioso o final da novela das 8 que, naturalmente, não me recordo o nome. O que importava de fato era a final que viria na sequência. Um confronto entre 2 dos maiores clubes do país, o embate Rio X São Paulo novamente em questão, Vasco e Palmeiras, Bacalhau e Porco, disputando uma taça internacional de grande valia.Rolava a bola no palestra, rolava a bola no meu coração.Meio segundo de peleja foi mais que o suficiente para que meu sofá se transformasse em arquibancada. Sofá que nesse caso, e em outros tantos, era mero decorativo, pois que eu me lembre, nunca consegui assistir a um jogo, ainda mais desse quilate, sentado numa poltrona. Não sou um torcedor contemplativo, sou participativo. Mais participativo e mal educado do que os ouvidos da minha mãe e da vizinhança gostariam. Ainda não inventaram palavras para substituírem a contundência de um palavrão bem dito. E esse dia eu disse todos!
O Palmeiras vinha pra cima, empurrado por sua apaixonada torcida. Tão logo, veio o primeiro o gol Palestrino, dos pés certeiros do paraguaio Arce. Mal a torcida verde comemora, e Magrão faz o segundo. Perto do fim da primeira etapa, Tuta coloca o terceiro no placar. Ainda não inventaram nada que me provoque mais mal humor do que levar um gol de um sujeito tão ruim de bola como o Tuta. Os 3 a 0 fechavam a conta do primeiro tempo, e do jogo, como ousariam afirmar os céticos. Se eu dissesse que acreditava na Vitória, estaria mentindo tanto quanto se falasse que a essa altura não chorava copiosamente. Minha mãe tentava me consolar, em vão. O que ela poderia dizer pra me animar? Que o Vasco iria virar a partida? Que faríamos o impossível? Sou passional, mas não a ponto de delirar, não nesses níveis melhor dizendo. Não queria mais saber do jogo. Troquei o canal. Fui me divertir com a burrice alheia assistindo “show do milhão”. Divertir não é bem a palavra, fui me refugiar. Desfiz até o santuário que costumava transformar minha televisão. Apaguei as velas, devolvi a santinha pro seu lugar, os barquinhos, o papagaio de porcelana, a minha pedra da sorte voltou pra gaveta. Não sou religioso, longe disso, sou só mais um maluco apaixonado cheio de manias e superstições que transformava a cada jogo a própria TV numa “salada turca”. De acordo com a importância da partida, mais apetrechos adornavam a telinha.
O segundo tempo começava enquanto eu ainda enxugava as lágrimas da tristeza, e me entretia com a ignorância que só o Silvio Santos é capaz de expor na televisão. A cabeça continuava lá no Palestra e o espírito de lá também não arredou o pé. Nem eu, tampouco o “Alviverde Imponente” poderiam supor que muita luta ainda o aguardava. Tínhamos um timaço. Tínhamos Juninhos, tínhamos Romário, e tínhamos fé, traduzida fielmente pelo anônimo com seus galhos de arruda no parque e pela “salada turca” da minha televisão, que voltou a ser rearrumada logo assim que Romário descontou. Meu pai foi um dos poucos que desde o começo dizia que esse jogo seria do Vasco. Talvez só cumprindo seu papel de pai, ao ver o filho Vascaíno desolado. Mas quando, novamente de pênalti, Romário trouxe a diferença para 1 gol, não precisava-se de muito para acreditar que a vitória era possível. Não seria mais um devaneio acreditar no impossível O tempo passava, minhas conversas com a santa na TV se intensificaram, os copos com água com açúcar desciam fáceis, assim, como água com açúcar. O gol não saía. Quem saía era meu coração, pela boca quase. E o impensado acontece. Juninho Paulista, um monstro nessa decisão, empata a partida. Já seria o suficiente para transformar em histórica essa noite. A torcida Vascaína faz festa no Palestra. Juninho pernambucano, outro monstro, bate no peito e convoca os torcedores presentes e os espíritos Vascaínos a entrarem em campo.
Quando Viola pega a bola na esquerda, parte decidido para o meio da área, vou junto com ele. A bola sobra pra Juninho paulista, que chuta pro gol. A bola desvia e sobra pra Romário, e de repente, vê- se a luz, o impossível, o improvável esta prestes a consumar-se. 15 milhões de Vascaínos, todos ao mesmo tempo, se transportam para dentro da reluzente cruz de malta no peito do nosso baixinho, e chutam a bola pro fundo da rede. É gol do Vasco! É gol dos Vascaínos! É grito que acorda os vizinhos! É lagrima de alegria! É coração em disparada! É felicidade! é chopp que se derrama no chão! É beijo na cruz! Beijo na Mãe, no Pai, no irmão, na namorada! É emoção que não se traduz! É noite que vira dia! É buzinasso pela rua! É orgulho! É paixão! É amor! É a certeza de feito a escolha certa! É a certeza de torcer pelo melhor, insuperável, incomparável, imaculado e apaixonante Club de Regatas Vasco da Gama!
História Enviada para o Livro " A Virada do Século"
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